sábado, 24 de novembro de 2012

Conhecimento sem simpatia




O sol estava se pondo quando Lin desembarcou no porto. Estava deixando para trás sua terra, seu mestre e sua vida. Não estava fugindo, mas se fortalecendo. Juntou suas coisas e caminhou pelas docas, mal deu alguns passos e foi recepcionada por um rapaz.

Rapaz: - Seja bem vinda a Ketmir! Porto das terras de Sandamar! Vejo que você não é daqui.

Lin: - Realmente não sou...

Rapaz: - Mas fala muito bem nossa língua! Você é das terras distantes para lá do mar ocidental?

Lin: - Sim – sorri pelo entusiasmo do rapaz.

Rapaz: - Me permita dar as boas vindas em nossa cidade-porto. – o rapaz tratou de pegar a única bagagem que Lin trazia – Tem algum lugar para ficar?

Lin: - Na verdade não. É minha primeira vez aqui.

Rapaz: - Então não conhece nada da cidade?

Um brilho surgiu no olhar do rapaz, mas quando ele virou para a rua, na sua frente estava uma elfa segurando um bordão e uma anã com um martelo.

Elfa: - Eu não sabia que em Ketmir existia um serviço de carregadores tão prestativo. Por que não tivemos isso quando chegamos da caravana, Alba? – perguntou a elfa para a anã ao seu lado, logo voltou o olhar arrogante para o rapaz – Ou esse serviço é só para viajantes tolos e cansados da viagem? Qual o seu nome moleque? Pela roupa deve algo do tipo “Fuinha, mãos leves” ou “Ligeirinho, afanador de bolsas” ou “Ponto final, o órfão”.

Rapaz: - Olha aqui sua elfa sacana! – o antes simpático rapaz agora estava irado e soltou a bagagem de Lin e sacou um punhal que ela até então não sabia de onde ele tirou – Tu quer morrer é?

O som foi rápido, a espada saiu da bainha de Lin e ficou rente ao pescoço do marginal. Com voz fria ela falou:

Lin: - Agradeço a recepção, mas agora você precisa ir.

O rapaz engoliu em seco, suou frio e afastou-se correndo. A elfa riu e Alba apenas balançou a cabeça. Lin foi até elas, pegando a bagagem antes e curvou-se em agradecimento. A anã ficou surpresa e a elfa sorriu em deboche.

Elfa: - O que está fazendo menina?

Envergonhada, Lin volta à posição normal e sem entender o deboche.

Lin: - Agradecendo pela ajuda.

Alba: - Não há de quê. – sorri compreensiva – Mas um obrigado já bastaria.

A elfa franze o cenho.

Elfa: - Não ache que fizemos isso por bondade. Vimos que você é uma guerreira... não muito esperta – murmurou – Mas que sabe manejar uma espada. Sendo mulher, acho que se encaixaria bem em nosso grupo. Alba é forte, mas não é muito rápida e eu sou inteligente demais para me ocupar com combate físico. Você parece perfeita para ser nossa ágil combatente.

Lin ficou um pouco paralisada com a franqueza da elfa, para não dizer arrogância, enquanto Alba apenas olhava para a guerreira em um gesto de desculpas.

Lin: - Eu... eu...

Alba: - A menina acaba de quase ser assaltada. Viajou por muito tempo. Vamos para a estalagem conversar. – ela olhou para a elfa – E fazer a proposta da forma certa.

A elfa revirou os olhos e aceitou. Lin acompanhou as duas.

Na estalagem, comeram um bom jantar e Lin conheceu as duas. A paciente e boa Alba é uma clériga de Moradin, Deus dos Anões, ela está em uma jornada pelos reinos para mostrar que o poder de seu Deus atinge qualquer lugar, não apenas os subterrâneos de sua raça. A chata elfa se chama Eida Fatin, uma maga que está aventurando-se para ganhar mais poder.

Eida: - Mas não acredite no que acabamos de lhe dizer. Nunca se sabe o que o outro pode estar planejando para acabar com sua vida. Aquilo tudo nas docas pode ter sido um teatrinho para fazer algo pior com você. – sorri.

Lin fechou a cara. Ela não podia conhecer os costumes locais, podia ser impetuosa e não ter bom senso, mas não era burra! Decididamente não gostava daquela elfa. Talvez captando isso, Alba interviu.

Alba: - Mas não se preocupe Lin, nós somos boas pessoas. Apesar do jeito de Eida, ela quis dizer que precisa de alguém como você. Pela sua história você quer se aventurar, correto?

Lin: - Sim, preciso treinar.

Alba: - Então venha conosco! Moradin está zelando por nós e ter suas habilidades será de grande ajuda.
Eida: - Mais músculos seria bom.

Apesar de não gostar de Eida, Lin precisava começar a se aventurar. Concordou em fazer parte do grupo e perguntou para onde elas estavam indo.

Eida: - Nosso destino é a cidade de Oakhurst.

********


De manhã era sempre o mesmo ritual. Na hora do café da caravana, Lin saía para treinar com suas duas espadas e Alba perdia seu tempo rezando para seu Deus, Eida observava isso de algum ponto onde estava estudando em seu Grimorium. “Por que ela reza para os céus? Ela não deveria estar rezando para a terra? Hahaha” pensava Eida e ria com sua própria piada.

Com a pressa de sua fuga ela só conseguiu um pergaminho da família e nesse momento passava com cuidado as palavras mágicas para seu livro. A magia invocar criaturas era uma das prediletas do pai, até tudo desmoronar. Não fisicamente, mas moralmente. Sua família inteira foi presa por um crime hediondo e foram sentenciados a reclusão na Caverna das Almas. Eida não foi pega porque estava viajando, conhecendo os bosques sagrados. Sua amiga Elyianne que deu a notícia e mesmo ela, que veio alertá-la, a tratou como se tivesse alguma doença. Aquele alerta foi seu último gesto de amizade.

Uma lágrima furtiva deslizou pelo rosto de Eida, ela limpou e olhou ao redor para ver se alguém tinha captado aquele momento de fraqueza. A elfa empinou o nariz e sorriu satisfeita ao perceber que havia passado a magia com perfeição, o pergaminho se desfez e agora ela poderia utilizar a magia.

Naquela tarde chegaram a Oakhurst e nada mais certo do que visitar a taverna local atrás de aventuras. Lin e Alba entraram cautelosas, mas Eida avançou até o mural de aventuras. Captou o olhar em um “Procura-se”.

Eida: - “Procuram-se Talgen Hucrele e Sharwyn Hucrele. Tratar com Kerowyn Hucrele. Grande Recompensa”.

Alba: - Eles querem capturar esses dois?

Eida revirou os olhos e Lin não gostou da atitude.

Eida: - Não. Eles têm o mesmo sobrenome, provavelmente estão desaparecidos.

Lin: - Então vamos encontra-los.

As Raízes da Aventura




Leonan e Altair avistaram uma cena inusitada. Ao longe, viram alguém caído ao chão da estrada e um lobo rondando o corpo. O ranger preparou a flecha, enquanto o bárbaro olhava desconfiado para a cena. Quando Altair estava prestes a abater a fera, Leonan colocou a mão sobre o braço do amigo.

Leonan: - Ele não está querendo ela pro jantar.

Altair: - Não? – o ranger era mais lento que o bárbaro, logo percebeu o que o companheiro queria dizer – É mesmo, ele está a protegendo!

Com cautela, os dois se aproximaram do animal. O lobo arreganhou os dentes, com os olhos alucinados encarou os dois. O bárbaro estava com o machado em mãos, mas Altair pediu para que ele se afastasse. O ranger caminhou e com murmúrios conseguiu aproximar-se do lobo sem ser atacado. Demonstrando que queria apenas cuidar da pessoa que estava ali deitada, foi com surpresa que ele viu que se trava de uma linda elfa, fortemente armada e protegida, mas estava pálida. Antes que ele pudesse fazer qualquer coisa, a elfa ergueu-se e quase lhe arrancou a cabeça com um golpe de sua cimitarra.

Altair: - Espere! Calma!

O ranger se afastou aos tropeços e Leonan ria.

Leonan: - Bom jeito com mulheres você tem! Hahaha!

Altair tentou explicar o que estava fazendo, mas recebeu como resposta palavras aflitas em um idioma que ele não tinha a menor ideia do que fosse.

Leonan: - Palavras de lã e com cânticos de passarinho, deve ser língua de elfo.

A elfa engoliu em seco, fechou os olhos e sentiu o corpo do lobo ao seu lado, instintivamente acariciou o focinho do companheiro com seu rosto e voltou a abrir os olhos, o ranger e o bárbaro estavam um ao lado do outro.

Druida: Eu...druida... eu... não...saber quem...sou.

*******



Apesar de não saber o próprio nome, ela tentava encontrar uma maneira de se chamar. O bárbaro a chamava de elfa e o ranger meio-elfo a chamava de... na verdade não chamava, apenas a olhava, desviava o olhar e depois dizia o que queria. Estava viajando com os dois já fazia uma semana, ela estava em um canto da clareira enquanto os dois preparavam a fogueira. Leonan reclamava com Altair porque ele saiu atrás de gravetos se ele poderia muito bem derrubar uma árvore e cortar a lenha.

Ela sorri. Nesse tempo conheceu os dois. Era difícil de entender algumas palavras, mas aos poucos, por instinto e não por lembrança, entendia o que eles diziam. Ela lembrou-se que era uma druida, isso não tinha dúvidas e o lobo a ajudou nisso. Mas de onde veio, quem ela era, não sabia dizer. Suas habilidades estavam intactas, mas suas lembranças de como as aprendeu estavam ainda apagadas.

Em uma das noites Leonan e Altair contaram como se conheceram. Foi durante um ataque de um urso pardo. O bárbaro estava prestes a enfrentar a criatura (e como ele dizia “trucida-la”) quando o ranger apareceu e evitou que ambos se machucassem. Leonan está em uma caçada contra um homem diabólico e perguntou se ela já viu uma bota de couro negro com grevas talhadas como ossos. O ranger brincou com o amigo dizendo que ela não se lembra do nome vai se lembrar de uma bota. Após uma troca de pancadas, os dois riram e contaram que desde então veem patrulhando as redondezas, servindo como guias de viajantes e aventureiros contratados.

Mesmo não tendo oferecido nada, os dois a acompanharam até um curandeiro local, que a examinou. Quando saiu da cabana viu Leonan comendo o que sobrou da janta de ontem e Altair, que estava sentado em um tronco, levantar-se de prontidão e ir até ela.

Altair: - E então? Há algo que possamos fazer?

Druida: - Não. Ele disse que minha falta de memória não é física, pode ter sido magia ou algum trauma.

Leonan: - Hum. Aquele velho deve estar com preguiça... ele pediu para “tocar” em você? – perguntou armando-se com o machado.

Ela sorriu, mas ao olhar para a cara de espanto de Altair tratou de esclarecer tudo.

Druida: - Não! Não teve....isso! – o ranger relaxou - Ele falou de algo...

As palavras saíram em um idioma estranho e tanto Altair como Leonan ficaram surpresos.

Leonan: - Essa língua é novidade...

Altair: - Vamos falar com o curandeiro, ele nos deve o traseiro quando o salvamos das hienas.

Mais tarde, com calma, os dois explicaram para a druida o que o curandeiro dissera. Ele falou de uma fruta, aparentemente uma maçã de cor perfeita, cura qualquer doença ou mal. Ela é vendida uma vez a cada verão em Oakhurst, o problema é que ela não é vendida por um mercador, mas por uma tribo de goblins. A sorte estava ao lado deles, o verão está quase chegando e a cidade ficava apenas a um dia de viagem.

Altair: - Chegando lá podemos descobrir mais sobre esse fruto.

Druida: - E vamos comprar dos goblins?

Altair fechou a cara e balançou negativamente a cabeça.

Leonan: - Nosso ranger não gosta de goblinóides. – o bárbaro sorri e acaricia a lâmina do machado com o polegar – Tem muitas maneiras de fazer trato com goblins.

A druida ficou um pouco espantada, mas o ranger desanuviou o rosto e sorriu para ela.

Altair: - Mas antes veremos se algum mercador tem a fruta.

Leonan: - Caso contrário, vamos bater na porta da fazendinha dos goblins.