O sol estava se pondo quando Lin desembarcou
no porto. Estava deixando para trás sua terra, seu mestre e sua vida. Não
estava fugindo, mas se fortalecendo. Juntou suas coisas e caminhou pelas docas,
mal deu alguns passos e foi recepcionada por um rapaz.
Rapaz: - Seja bem vinda a Ketmir! Porto das terras de Sandamar! Vejo
que você não é daqui.
Lin: - Realmente não sou...
Rapaz: - Mas fala muito bem nossa
língua! Você é das terras distantes para lá do mar ocidental?
Lin: - Sim – sorri pelo entusiasmo do rapaz.
Rapaz: - Me permita dar as boas
vindas em nossa cidade-porto. – o rapaz tratou de pegar a única bagagem que Lin
trazia – Tem algum lugar para ficar?
Lin: - Na verdade não. É minha primeira vez aqui.
Rapaz: - Então não conhece nada da cidade?
Um brilho surgiu no olhar do
rapaz, mas quando ele virou para a rua, na sua frente estava uma elfa segurando
um bordão e uma anã com um martelo.
Elfa: - Eu não sabia que em Ketmir existia um serviço de
carregadores tão prestativo. Por que não tivemos isso quando chegamos da
caravana, Alba? – perguntou a elfa para a anã ao seu lado, logo voltou o olhar
arrogante para o rapaz – Ou esse serviço é só para viajantes tolos e cansados
da viagem? Qual o seu nome moleque? Pela roupa deve algo do tipo “Fuinha, mãos
leves” ou “Ligeirinho, afanador de bolsas” ou “Ponto final, o órfão”.
Rapaz: - Olha aqui sua elfa sacana! – o antes simpático rapaz agora
estava irado e soltou a bagagem de Lin e sacou um punhal que ela até então não
sabia de onde ele tirou – Tu quer morrer é?
O som foi rápido, a espada saiu
da bainha de Lin e ficou rente ao pescoço do marginal. Com voz fria ela falou:
Lin: - Agradeço a recepção, mas agora você precisa ir.
O rapaz engoliu em seco, suou
frio e afastou-se correndo. A elfa riu e Alba apenas balançou a cabeça. Lin foi
até elas, pegando a bagagem antes e curvou-se em agradecimento. A anã ficou
surpresa e a elfa sorriu em deboche.
Elfa: - O que está fazendo menina?
Envergonhada, Lin volta à posição
normal e sem entender o deboche.
Lin: - Agradecendo pela ajuda.
Alba: - Não há de quê. – sorri compreensiva – Mas um obrigado já
bastaria.
A elfa franze o cenho.
Elfa: - Não ache que fizemos isso por bondade. Vimos que você é uma
guerreira... não muito esperta – murmurou – Mas que sabe manejar uma espada.
Sendo mulher, acho que se encaixaria bem em nosso grupo. Alba é forte, mas não
é muito rápida e eu sou inteligente demais para me ocupar com combate físico.
Você parece perfeita para ser nossa ágil combatente.
Lin ficou um pouco paralisada com
a franqueza da elfa, para não dizer arrogância, enquanto Alba apenas olhava
para a guerreira em um gesto de desculpas.
Lin: - Eu... eu...
Alba: - A menina acaba de quase ser assaltada. Viajou por muito
tempo. Vamos para a estalagem conversar. – ela olhou para a elfa – E fazer a
proposta da forma certa.
A elfa revirou os olhos e
aceitou. Lin acompanhou as duas.
Na estalagem, comeram um bom
jantar e Lin conheceu as duas. A paciente e boa Alba é uma clériga de Moradin,
Deus dos Anões, ela está em uma jornada pelos reinos para mostrar que o poder
de seu Deus atinge qualquer lugar, não apenas os subterrâneos de sua raça. A
chata elfa se chama Eida Fatin, uma maga que está aventurando-se para ganhar
mais poder.
Eida: - Mas não acredite no que acabamos de lhe dizer. Nunca se
sabe o que o outro pode estar planejando para acabar com sua vida. Aquilo tudo
nas docas pode ter sido um teatrinho para fazer algo pior com você. – sorri.
Lin fechou a cara. Ela não podia
conhecer os costumes locais, podia ser impetuosa e não ter bom senso, mas não
era burra! Decididamente não gostava daquela elfa. Talvez captando isso, Alba interviu.
Alba: - Mas não se preocupe Lin, nós somos boas pessoas. Apesar do
jeito de Eida, ela quis dizer que precisa de alguém como você. Pela sua
história você quer se aventurar, correto?
Lin: - Sim, preciso treinar.
Alba: - Então venha conosco! Moradin está zelando por nós e ter
suas habilidades será de grande ajuda.
Eida: - Mais músculos seria bom.
Apesar de não gostar de Eida, Lin
precisava começar a se aventurar. Concordou em fazer parte do grupo e perguntou
para onde elas estavam indo.
Eida: - Nosso destino é a cidade de Oakhurst.
********
De manhã era sempre o mesmo
ritual. Na hora do café da caravana, Lin saía para treinar com suas duas
espadas e Alba perdia seu tempo rezando para seu Deus, Eida observava isso de
algum ponto onde estava estudando em seu Grimorium. “Por que ela reza para os
céus? Ela não deveria estar rezando para a terra? Hahaha” pensava Eida e ria
com sua própria piada.
Com a pressa de sua fuga ela só
conseguiu um pergaminho da família e nesse momento passava com cuidado as
palavras mágicas para seu livro. A magia invocar criaturas era uma das
prediletas do pai, até tudo desmoronar. Não fisicamente, mas moralmente. Sua
família inteira foi presa por um crime hediondo e foram sentenciados a reclusão
na Caverna das Almas. Eida não foi pega porque estava viajando, conhecendo os
bosques sagrados. Sua amiga Elyianne que deu a notícia e mesmo ela, que veio
alertá-la, a tratou como se tivesse alguma doença. Aquele alerta foi seu último
gesto de amizade.
Uma lágrima furtiva deslizou pelo
rosto de Eida, ela limpou e olhou ao redor para ver se alguém tinha captado
aquele momento de fraqueza. A elfa empinou o nariz e sorriu satisfeita ao
perceber que havia passado a magia com perfeição, o pergaminho se desfez e
agora ela poderia utilizar a magia.
Naquela tarde chegaram a Oakhurst
e nada mais certo do que visitar a taverna local atrás de aventuras. Lin e Alba
entraram cautelosas, mas Eida avançou até o mural de aventuras. Captou o olhar
em um “Procura-se”.
Eida: - “Procuram-se Talgen Hucrele e Sharwyn Hucrele. Tratar com
Kerowyn Hucrele. Grande Recompensa”.
Alba: - Eles querem capturar esses dois?
Eida revirou os olhos e Lin não
gostou da atitude.
Eida: - Não. Eles têm o mesmo sobrenome, provavelmente estão
desaparecidos.
Lin: - Então vamos encontra-los.


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